A Superioridade das Escrituras

1 fev


A Superioridade das EscriturasGerson Lima

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Tm 3.16,17).

É comum nos determos em alguns assuntos das Escrituras enquanto evitamos outros, assim como é comum nos dedicarmos mais a alguns livros da Bíblia do que a outros. Há assuntos pelos quais nos sentimos mais atraídos de acordo com as circunstâncias e o nível de espiritualidade em que nos encontramos. É comum, sim, em parte, enquanto estamos no estágio de infância espiritual na jornada à maturidade. À medida que crescemos na fé, cada vez mais somos disciplinados pelo Espírito Santo a deixar nossas preferências para valorizarmos seu supremo propósito.

Enquanto nossas preferências normalmente são egoístas, naturais e momentâneas, a do Senhor é altruísta, centrada em seu propósito eterno em Cristo (Ef 3.11). Deus quer que sejamos salvos e cheguemos ao pleno conhecimento da verdade (1 Tm 2.4). Por isso, é necessário trilharmos o caminho da maturidade cristã, sendo responsáveis pela verdade como um todo, para não nos perdermos, como meninos agitados pelos ventos de doutrinas, na periferia dos detalhes, desconectando-os do seu foco central (Ef 4.13-15).

Não anular as Escrituras com assuntos das Escrituras

Satanás é astuto em apresentar-nos pontos das Escrituras separados do seu pensamento central. Ele tentou nosso Senhor no deserto apresentando partes da Palavra de Deus. A resposta de Jesus foi enfática: “Nem só de pão o homem viverá, mas de TODA a palavra de Deus” (Mt 4.11, ênfase acrescentada).

Qualquer ponto das Escrituras perde seu real valor quando é separado do seu devido lugar no pleno conjunto das verdades que compõem a verdade. “Quando se examina qualquer ensinamento, é regra sábia proceder do geral para o particular. Essa é a única maneira de ‘não se perder de vista o bosque por causa da árvore’ ” (Martyn Lloyd-Jones). As piores heresias e desvios doutrinários são fundados em partes da verdade que sacrificam a verdade.

Em João 5.38-40, Jesus condena os judeus que esquadrinhavam as Escrituras com motivação errada. Eles as investigavam porque cuidavam achar nelas a vida eterna. No entanto, elas não falam da vida eterna em si, mas de Jesus Cristo. Achando-o, achamos a vida eterna. Jesus se admira de que, embora as Escrituras deem testemunho dele, eles, ao examiná-las procurando a vida eterna, não queriam ir a ele para ter vida. Assim, fica evidente que eles não procuravam a vontade de Deus, mas, sim, satisfazer a vontade própria. Ao invés de se submeterem aos ensinamentos das Escrituras, usavam partes isoladas para sustentar opiniões humanas. Dessa forma, invalidavam a Palavra de Deus ensinando doutrinas de homens (Mt 15.6).

As verdades das Escrituras estão entrelaçadas tendo Cristo como propósito central que dá sentido a tudo. Quando separamos algo dele, deixa de ser verdade, no sentido exato da palavra, tornando-se apenas uma casca morta da verdade, sem conteúdo. Jesus advertiu que não se pode anular as Escrituras (Jo 10.35). Fazemos isso por preferirmos pontos isolados ou por estabelecermos interpretações particulares em detrimento da própria interpretação que as Escrituras dão de si mesmas. Quando nos aferramos em assuntos isolados, criamos conceitos e dogmas como verdades em detrimento da verdade.

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O equilíbrio entre os fundamentos e os assuntos gerais

É imprescindível reconhecermos que as próprias Escrituras apontam para uma hierarquia de valores entre os assuntos fundamentais e os não fundamentais. Em Mateus 23, corrigindo os escribas e fariseus, Jesus diz que eles eram guias cegos, pois negligenciavam o que é maior e primeiro (vv. 17, 19 e 26) e os preceitos mais importantes da Lei (v. 23), coando mosquito e engolindo camelos (v. 24).

A direção das Escrituras (1 Co 3.9-11) nos ensina que devemos iniciar pelo fundamento (Cristo e sua obra na cruz), para depois seguirmos para a edificação (os demais assuntos e práticas). Nos assuntos fundamentais, temos de nos aprofundar e batalhar por eles (Jd 3 e 4). No entanto, somos exortados a não contender ou julgar uns aos outros pelos assuntos que não são fundamentais (Rm 14).

Logo, quando nos aferramos em assuntos não fundamentais, tendo-os como base de salvação, comunhão ou ministério, perdemos facilmente o rumo da obra de Deus e passamos a edificar nossa própria obra, condenando os que pensam diferente de nós. Uma heresia não é uma mentira em si, mas uma verdade isolada que gera grupos facciosos em detrimento de toda a verdade e da unidade do amplo Corpo de Cristo.

O escritor da Carta aos Hebreus corrigiu seus leitores porque, pelo tempo que já tinham na fé, deveriam ser mestres. Devido à negligência aos princípios das Escrituras, a realidade era que eles necessitavam de que alguém voltasse a ensinar-lhes os rudimentos elementares da doutrina de Cristo para, então, prosseguirem à perfeição (Hb 5.11-14; 6.1-2). Por desconhecer a coerência das Escrituras, ou tentamos avançar ignorando os fundamentos, ou não avançamos por ficar dando volta neles. O equilíbrio é nos aprofundarmos nos fundamentos para avançarmos numa edificação equilibrada, que suporta as tempestades das tribulações e ventos de doutrinas.

A Chave para Compreendermos as Escrituras

No caminho para Emaús, depois de ressuscitar, Jesus usou as Escrituras para se revelar a dois discípulos que estavam perplexos em relação à crucificação.

“Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (…). “E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (Lc 24.25-27,32, ênfase acrescentada).

Mais tarde, Jesus apareceu aos outros discípulos em Jerusalém para mostrar que havia ressuscitado. Diante do seu espanto, disse-lhes: “São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.44,45, ênfase acrescentada).

O entendimento deles se abriu depois que viram, pela exposição das Escrituras, que a essência da Lei, dos Profetas e dos Salmos era revelar Cristo e sua obra. Que coisa gloriosa: a Palavra encarnada revelando o segredo para entendermos a Palavra escrita! O sentido da Palavra escrita é revelá-lo. Logo, chegar-se a ela para encontrá-lo é a chave para entendê-la. Expor a palavra para ministrar Cristo faz arder o coração dos ouvintes e lhes abre o entendimento para conhecê-lo. Precisamos crer que o Espírito Santo atua quando procuramos Cristo nas Escrituras. O ir a Cristo, sujeitando nosso coração ao Espírito para conhecê-lo, é o segredo para entrarmos nos tesouros escondidos por detrás das letras.

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Quando tiramos os olhos de Cristo, impomos nosso “eu”, e nossas opiniões se tornam referência ao nos achegarmos às Escrituras. Buscamos nelas confirmação ao que já concluímos. Quando nos colocamos acima delas e não abaixo, o Espírito da palavra se ausenta, e, no lugar de luz, temos trevas.

Outra chave para compreendermos as Escrituras é entendermos que a revelação da Palavra é progressiva. O pensamento das Escrituras foi crescendo pela história por meio do relacionamento de Deus com seus filhos. Em Gênesis, temos a semente; nos profetas, seu cultivo; nos evangelhos, seu fruto, que é Cristo; nas epístolas, a multiplicação do fruto na Igreja; e, em Apocalipse, a colheita.

Desse modo, é extremamente necessário ao que estuda a Palavra não avançar desordenadamente em seus assuntos, mas, sim, procurar ser conduzido por ela na medida em que a própria revelação vai abrindo novas facetas. Como uma flor se abre de botão em botão, até florescer plenamente, assim é a revelação da Palavra: luz após luz até vermos plenamente a culminação do mistério de Deus em Cristo. Não podemos queimar etapas.

O desafio do nosso tempo

Por que cada vez mais o misticismo, o liberalismo e o pragmatismo têm arrastado multidões do povo de Deus para longe da essência das Escrituras? Porque, sutilmente, ao buscarem obsessivamente o crescimento da igreja e o bem-estar do homem, as pessoas têm adotado métodos que anulam as Escrituras, projetando um estilo de liderança autoritária cujos ensinamentos estão acima delas. Assim, atraem-se multidões enquanto se expulsa Cristo.

Quando perdemos de vista seu propósito eterno, restringimos a esfera da obra de Deus ao nosso momento atual e nos isolamos em nosso pequeno círculo de ação. Quando a Igreja perde sua identidade nas Escrituras, passa a ter um fim em si mesma. Ela deixa de ser o testemunho do Senhor e passa a ser um movimento humano. Todo ministério e movimento que estejam centralizando-se no bem-estar do homem tiram Cristo de foco por anular as Escrituras.

Nesse tempo do fim, nosso desafio é voltarmos à pregação pura das Escrituras demonstrando a vontade de Deus em Cristo. Todos os problemas do povo de Deus nascem do fato de nos desviarmos, primeiramente, de Deus, de seu propósito em Cristo e de sua Palavra como um todo. Contemplando Cristo pela revelação da Palavra, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem (2 Co 3.14-18). Somente assim, o véu da religiosidade se rasgará, e passaremos a contemplar sua glória e a cooperar, de verdade, com seus objetivos na Terra.

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Gerson Lima

Editor da Editora dos Clássicos.

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