Herbert L. Roush – O Homem que Deus Usa

11 fev

Não há homem na face da terra que viva uma vida mais incomum como aquele homem que Deus decide usar para Sua glória e louvor. Se ele há de ser mensageiro de Deus, pastor de Cristo, o vaso do Espírito, então, ele, forçosamente, deve ser um instrumento preparado pela mão de Deus da forma que seja necessária para equipá-lo. A mensagem que ele leva é uma mensagem viva, pois é a vida do próprio Cristo. Visto ser uma mensagem viva que ele proclama pelo poder do Espírito, então, ele, obrigatoriamente, precisa ser levado a “viver” essa mensagem dentro dos limites da sua própria experiência.

 

O HOMEM QUE DEUS USA VIVE UMA VIDA SOLITÁRIA

 

“Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram” (2 Tm 4.16). “… Demas, tendo amado o presente século, me abandonou…” (2 Tm 4.10). “… e eu [Elias] fiquei só, e procuram tirar-me a vida” (1 Rs 19.10).

O homem que Deus acha por bem usar, pela Sua graça, para abençoar outros e para Sua própria glória deve ser levado a ficar sozinho na presença d’Ele. Somente o homem que esteve sozinho no deserto por três anos e meio, Elias, saberá o que significa enfrentar um Acabe e uma Jezabel. O homem que Deus usa para mandar descer fogo do céu terá de se submeter à disciplina da solidão. Se um homem deseja receber a revelação de Jesus Cristo, ele deve aceitar a solidão da ilha de Patmos. A revelação da graça de Deus é quase sempre e invariavelmente aprendida na solidão da Arábia, quando até mesmo os irmãos não estendem a destra da comunhão durante quatorze anos.

O homem que deseja conhecer a Deus na sarça ardente deve sofrer a rejeição nas mãos do mundo e dos irmãos e se retirar para o deserto de Midiã para estar a sós com Deus. Dele é exigido que deixe tudo para seguir a Jesus. Isso geralmente requer que ele seja compelido para fora do acampamento mais do que outros, a fim de que possa desafiar os santos a uma conduta mais elevada. Ele aprende a adorar, apoiado no seu bordão, com um olhar de receio em relação a todos aqueles que possam se oferecer para sustentá-lo ou fortalecê-lo, pois isso pode se tornar apenas outra cana quebrada que há de traspassar sua mão já tão ferida (Is 36.6). Esse caminhar e treinamento chamado solidão produz dois resultados em sua vida:

 

Seus Conflitos Interiores Não Podem Ser Revelados.

Quando tenta explicar a fonte da sua dor, visando a encontrar simpatia ou alívio, ele descobre que seus conflitos interiores não podem ser revelados aos outros, a fim de que os homens não o considerem louco e Deus não seja despojado da glória de ser tudo para ele. Ele deve sofrer sozinho com seus conflitos, como um fogo que arde nos ossos e só Deus conhece, entende e apaga. Isso produz nele uma tendência de não sentir simpatia ou entendimento humano.

 

Desapontado com a Aparente Indiferença dos Irmãos.

Seu fardo se torna mais pesado quando, à semelhança do Senhor Jesus no Getsêmani, em Sua maior agonia, espera em vão dos irmãos sonolentos, inconscientes do grande temor necessidade da Sua alma. Frequentemente, ele fica chocado com a aparente indiferença dos irmãos e retorna para a agonia desconhecida, com um fardo ainda mais pesado do que antes. Isso geralmente o deixa exposto ao pecado de um coração crítico e que busca as falhas dos outros.

 

O HOMEM QUE DEUS USA VIVE UMA VIDA SOBRECARREGADA

 

Ele leva em seu coração, se é realmente um vaso do Senhor, um fardo que não pode compartilhar com ninguém, a não ser com aqueles que conhecem o mesmo fardo, em sua própria experiência. O enorme peso da responsabilidade Divina o leva a clamar: “Quem é suficiente para estas coisas?”. Muitas vezes, ele resolve deixar sua posição e fugir para uma ocupação lícita, visando ao alívio e descanso, mas é atado por um inescapável “ai de mim se não pregar o Evangelho!”. Ele geme em sua habitação terrena, debaixo do fardo, e abandonaria tudo para ir pescar se não fosse pelo constante lembrete de que haverá um dia quando ele deverá sair molhado do mar da vida para encarar um Senhor de coração pesado e ouvi-lO dizer: “Amas-Me?”. Esse fardo o homem de Deus tenta, de tempos em tempos, carregar por si mesmo. Ele clama: “Esse povo é demais para mim”. Ele se afunda debaixo desse fardo até aprender que o encargo pertence ao Senhor e que Seu fardo é leve e Seu jugo é suave. O fardo constante de estudar a Palavra de Deus tende a torná-lo esgotado, como disse o Pregador em Eclesiastes: “O muito estudar é enfado da carne” (12.12). A palavra “enfado” traz a ideia de cansaço e fadiga. Um Demas que nos abandona, um irmão que deve ser resistido na face, um irmão professo que levanta o calcanhar contra nós enquanto come o pão do amor e da comunhão conosco podem tirar de nós, em poucas horas, aquilo que dez anos de trabalho honesto com as mãos não poderiam.

 

O HOMEM QUE DEUS USA VIVE EM FRAQUEZA

 

Considere que Romanos ensina que todos temos fraquezas; caso contrário, por que o Espírito de Deus nos ajudaria nelas? Essas fraquezas podem ser fontes físicas de desânimo. Essas fraquezas físicas podem consumir nossas reservas de força até que, em nossas fraquezas, somos conduzidos à força do Senhor. Se realmente conhecêssemos o calor das fornalhas no qual alguns homens labutam e caminham, haveríamos de reconhecer que a graça ainda tem seus mártires sendo queimados diariamente, como sacrifícios vivos nas estacas invisíveis para os homens. Se pudéssemos ver o conflito interior sob o qual alguns homens pregam e trabalham, ficaríamos sempre maravilhados com a Graça que os sustenta e não com a depressão intermitente que os esmaga. Haveríamos de glorificar a Deus por Suas muitas vitórias em vez de magnificar as poucas derrotas deles. Os santos se assentam aos pés do homem de Deus enquanto ele ministra e se deleitam com a fonte de águas vivas, mas alguns nunca tomam conhecimento de que essas águas refrescantes foram retiradas da rocha fendida da própria alma deles.

Ele está envolvido constantemente com uma luta oculta que se trava entre duas convicções:

Que seu corpo é um sacrifício vivo para Deus e, como tal, é o templo do Espírito Santo, e deve ser assim cuidado;

Que, como um sacrifício vivo, ele deve gastar-se e ser gasto, derramado sobre o sacrifício e serviço de fé dos santos (Fp 2.17).

Ele é importunado pelo pensamento de que o corpo do seu Senhor foi quebrado por ele e, por isso, não pode fazer menos. Enquanto o conflito se trava, e cada dia que passa fica mais certo de poder reconciliar esses dois pensamentos opostos, ele se move com passadas incomuns. Ele é impelido hora a hora pelo chicote incessante de um encargo de conhecer mais a Palavra de Deus, até que, ocasionalmente, o estudo se torna uma prisão, e seus livros barras de ferro que o algemam às colunas da responsabilidade. Ele esquece, ou ninguém o faz lembrar, que todo animal de carga deve eventualmente ser conduzido ao descanso e todo campo deve repousar para não se tornar estéril ou infrutífero. Ele se esquece de que todo trabalhador deve ter um tempo para afiar suas ferramentas e se restaurar, e geralmente a agradável e moderada ação de cuidar do seu corpo é tragada pelo zelo da casa do Senhor.

 

O HOMEM QUE DEUS USA SOFRE FRUSTRAÇÃO

 

Essa é uma fonte enorme de desencorajamento. Repentinamente, o homem de Deus vê que há tanto para fazer e tão pouco tempo para ser usado. Ele pode estar em doce comunhão na Palavra e com a Palavra de Deus e, de repente, resplandecendo das suas páginas, surge a mensagem: “Uma vida só, que logo passará; e só o que é feito para Cristo permanecerá”. Ele considera o quanto ainda está por fazer, vê-se como um “gafanhoto” aos seus próprios olhos e, então, cai prostrado em desespero. Ele considera o campo enorme a ser lavrado (o mundo) e comprova o quanto seu arado precisa ser amolado, quão forte é o calor do sol e quão áspero é o cabo do arado. Seus pequenos esforços parecem tão inúteis, e ele se julga incapaz, enquanto olha para trás desanimado. Ele ouve o Senhor Deus dizer: “Clama a plenos pulmões, não te detenhas, ergue a voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados” (Is 58.1). Ele leva a trombeta aos lábios enfraquecidos e quase sempre produz um sonido incerto. Tudo isso resulta numa torrente ardente de frustração liberada sobre sua alma, exigindo a paciência de Jesus e o bálsamo de Gileade para restaurá-lo ao seu lugar de serviço.

 

O HOMEM QUE DEUS USA É ATACADO POR SATANÁS

 

Como aconteceu com Paulo em Filipos, quando, ao sair para orar, uma menina endemoninhada o conturbou e foi preciso tratar com esta interrupção satânica primeiro antes que pudesse haver oração. Onde quer que haja um Jó, haverá um Satanás para acusá-lo falsamente e conseguir de Deus a chance para tentar sua vida de modo incomum. O homem de Deus luta diariamente com principados e potestades e aprende cedo em seu ministério a reconhecer aquele combate invisível em cada coisa aparentemente inocente em sua vida. Ele contempla essa operação do inimigo em seus próprios filhos, em outros cristãos, em inimigos e amigos. Coisas boas e más são investigadas visando a detectar o ataque e armadilha invisíveis do diabo.

Mas muitas vezes, em vez de vigiar e orar, ele dorme, como os discípulos do passado, e é vencido e levado cativo. Esses ataques se concentram no vaso que Deus usa. Ele pode ficar firme diante de uma multidão murmuradora num momento e logo depois ir para sua tenda e adormecer na solidão, depois de chorar bastante. Exatamente quando sente que Deus abençoou seu ministério e se acha pregando para as multidões, os milhares repentinamente lhe viram as costas e manifestam que realmente não querem as palavras de vida eterna. Desapontado, ele se volta para os doze que ficaram e descobre, com coração desalentado, que um deles é um traidor. Isso é, às vezes, mais do que ele pode suportar por um instante.

Ele resiste a uma torrente de flechas atiradas pelo arco de um infiel, para simplesmente cair mortalmente ferido por um dardo lançado pela boca de um irmão. Ele é constantemente acusado de uma ou outra coisa, e o gotejar contínuo da crítica e dos apontadores de falhas cai sobre a grande rocha do seu coração, aparentemente sem qualquer sucesso, dia após dia. Então, sem qualquer aviso, uma simples gota cai sobre ele e o despedaça.

 

POR QUE DEUS PERMITE ESSAS COISAS?

 

Vejo que existem três princípios invariáveis operando nesta questão:

 

Deus Permite que a Derrota Venha depois da Vitória

 Davi feriu seus dez milhares, mas a Palavra de Deus declara que ele ficou debilitado na batalha. Jacó lutou a noite inteira, mas se apoiou em seu cajado na manhã seguinte. Elias pediu fogo do céu e levou Satanás a fugir, e o ribeiro ficou tinto de vermelho com o sangue dos falsos profetas. Observe-o no dia seguinte: ele não se vangloria dos seus feitos, mas veja-o com o rosto no chão, ouça-o clamando por livramento. É o equilíbrio de Deus! É o método de Deus para diminuir Seus servos diante d’Ele, humilhando-os sob Sua poderosa mão, a fim de poder exaltá-los de novo no tempo devido. Parece haver um tempo para vitória e um tempo também santificado para derrota aparente. Digo “aparente” porque isso só é assim aos olhos indisciplinados da carne. Esta não pode ver que o homem de Deus está na Escola da Disciplina e na fornalha visando ao aperfeiçoamento, que ele está na roda para ser feito um vaso novo. Somente a fé pode entender isso. Leia João 16.20-22 e observe a regra imutável de Deus: tristeza antes da alegria. Ele deve se ocultar para que Sua revelação seja mais gloriosa.

 

A Vitória geralmente É Precedida por Derrota Esmagadora

Muitas vezes ele deve ficar na divisa de Canaã e se enxergar como um gafanhoto aos seus próprios olhos, chegando a tremer de medo; mas outro dia vem e, correta e adequadamente humilhado, ele avança em vitória. Ele contempla uma Nínive e está pronto para fugir, como Jonas, se apenas um navio conveniente se posicionar e levá-lo tranquila e sossegadamente para alguma Társis longínqua. Ele paga a passagem em derrota e desânimo e é levado de volta pelo ventre do grande peixe em vergonha, e vomitado das suas circunstâncias no colo da vontade de Deus para entregar uma cidade em Suas mãos.

 

Elas São Necessárias para Aprendermos a Levar as Cargas dos Outros

Assim nos assegura nosso irmão Pedro: provas ardentes, várias opressões, grandes tentações, se “necessário” for. Sim, louvado seja Deus, o homem que Deus usa deve ter um espinho, de tempo em tempo, para impedir que ele se exalte acima da medida. Você, a quem ele ministra, teria uma tendência para exaltá-lo acima da medida se Deus não permitisse a você ver que ele é também um homem com as mesmas paixões. Você é levado à oração pelas fragilidades daquele que você imaginava ser forte. Você sente fortemente a necessidade de vigiar em oração pelo seu próprio bem-estar e teme que, se o pastor falha, as ovelhas também podem cair da sua própria firmeza. Essas ocasiões são necessárias para podermos levar as cargas uns dos outros.

O homem de Deus recebe a revelação das coisas de Cristo de tempos em tempos. Paulo disse que a abundância das revelações garantiu a ele um constante mensageiro de Satanás para esbofeteá-lo e humilhá-lo. Oh, louvado seja Deus por esses mensageiros da misericórdia e joias da Sua graça! Estes, que transmitem os oráculos de Deus, devem primeiro ser esvaziados dos seus próprios projetos. Estes, que devem ser vasos de glória, devem ser quebrados frequentemente na roda do oleiro. Se um homem quer ser guiado pelo Espírito, ele tem necessidade de ser tentado pelo diabo, como nosso bendito Senhor o foi. Aquele que deve ser elevado ao terceiro céu da revelação precisa ser levado aos limites dos seus próprios recursos por um espinho na carne. Aquele que deve vigiar as ovelhas de Cristo deve compartilhar do amor do Pastor que disse: “Dou a Minha vida pelas Minhas ovelhas” (Jo 10.15). Embora haja sofrimento, não pode ser comparado com a glória que será revelada em nós. Embora participe por um momento da comunhão do sofrimento de Jesus, o que virá depois será o poder da Sua ressurreição. Mesmo que ele, como Pedro, esteja por algum tempo em grande opressão e muitas tentações, isso será seguido por alegria indescritível e cheia de glória. Embora seu mundo esteja afundado num dilúvio de quarenta dias e noites, haverá um arco na nuvem, Deus se lembrará da Sua aliança e ele descansará em terreno mais santo. Ele é mais do que vencedor por meio d’Aquele que o amou. As doces palavras de promessa de Jesus expurgam suas dores numa santa inundação de alegria: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4).

Ouça a conclusão de todo o assunto nas palavras que Paulo usa para falar livremente do seu próprio ministério: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida” (2 Co 4.7-12).

 

(O presente artigo foi retirado da obra O Homem que Deus Usa, publicado pela Editora dos Clássicos.)

Herbert L. Roush nasceu em 1928 e teve a sua experiência com o Senhor com cerca de vinte anos. Logo após sua conversão, começou a testemunhar ativamente de sua fé e, em pouco tempo, foi ordenado obreiro na sua congregação. Cuidava de sete igrejas rurais na região montanhosa de West Virginia, nos Estados Unidos. Seus estudos particulares na Palavra de Deus (ele nunca frequentou seminário ou instituto bíblico) levaram-no a conflitos com a situação da Igreja em sua época, e alguns anos depois ele começou um grupo de estudo em sua própria casa. Percebendo que até a igreja que se formou a partir desse grupo estava se tornando uma instituição humana, ele procurou, por meio de estudos sistemáticos, versículo por versículo, a verdadeira liberdade da Nova Aliança e da mensagem de graça pela cruz de Cristo.

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