Stephen Kaung – Como discernir o poder divino, da alma e do maligno

9 mar

Pergunta: Como discernimos entre o poder da alma e o poder divino? Poderia, por favor, explicar isso de um modo prático e, se for possível, dê exemplos.

P: É necessário estar capacitado para distinguir o poder da alma do poder do mal ou diabólico? Em caso afirmativo, como alguém faz a distinção?

P: Você poderia explicar por que temos que temer mais o poder da alma do que o pecado e qual a diferença entre os dois?

P: Depois que alguém é exposto a um poder que não se origina em Deus, como ele pode se libertar dos poderes diabólicos e das doutrinas de demônios? Uma pessoa pode ser completamente liberta?

 

Ao responder a essas perguntas, penso que é um primeiro passo quando você começa a perceber que há mais de um poder neste mundo. Se formos ignorantes a esse respeito, então agarraremos qualquer poder e realmente estaremos em situação difícil. Além do poder espiritual de Deus, neste mundo estamos expostos ao poder maligno, diabólico; e também dentro de nós há o poder da alma, o poder psíquico. Por isso penso que de fato é algo bom para se perceber e saber.

Já mencionei que se você considerar o desempenho exterior é muito difícil, quase impossível, distinguir esses três poderes. Por exemplo: os sinais e maravilhas podem vir de Deus, mas 2 Tessalonicenses 2:9 nos diz que nos últimos dias haverá as obras de Satanás com todo o poder, sinais e maravilhas. Também sabemos que até psiquicamente podemos produzir sinais e maravilhas. Portanto, é quase impossível distingui-los somente pelo desempenho exterior. Por um lado, o único modo de distingui-los é investigar a sua fonte; de outro lado, você pode olhar para as consequências. Pela origem e pelas consequências distinguiremos esses três poderes.

Eu gostaria de abordar isso por meio da experiência. Digamos que uma pessoa é recém-salva. Ela acaba de experimentar a excelente grandeza do poder de Deus. Ela tem nela o poder da vida de ressurreição, o mesmo poder de Deus, e começa a viver por esse poder. Então, ela não sabe que, embora Deus lhe tenha dado uma nova vida, uma vida poderosa, um poder espiritual e por esta vida deve trabalhar e viver, há ainda a natureza caída, a vida adâmica, a velha vida dentro dela, que tem o seu poder para viver e trabalhar.

A princípio, provavelmente, pensamos que depois que somos salvos estamos totalmente salvos – espírito, alma e corpo –, mas na experiência não é assim. Quando você é salvo, nasce do alto. Aquele que é nascido do Espírito é espírito. Em outras palavras, o novo nascimento está em seu espírito. Nele você recebe uma nova vida, mas a sua alma não mudou, seu corpo não mudou. Há alguns efeitos, é verdade, mas não mudanças. Por exemplo: se uma pessoa é salva, fisicamente ela ainda tem o corpo mortal; você pode ver que há um pouco de mudança ali, mas é superficial. Antes de ser salva ela tinha uma face comprida, mas depois que foi salva tem uma face arredondada. Isso é uma pequena mudança, mas não é uma mudança básica. Ainda é o corpo mortal. Um dia, se o Senhor tardar, o nosso corpo mortal, sendo pó, será convertido em pó, e receberemos um corpo ressurreto, um corpo espiritual. Essa é a redenção do nosso corpo no futuro. A regeneração no nosso espírito está no passado. Ela já aconteceu e continua. Contudo, a salvação da alma é a obra presente do Espírito Santo em nossa vida. Ele está nos transformando, nos conformando à imagem de Cristo, e esta é a salvação da alma que está acontecendo hoje em nossa vida. Essa é apenas a doutrina, mas sem ela não posso fundamentá-lo.

Depois que você é salvo, começa a viver sua vida cristã e servir ao Senhor. Em verdade, você deve começar a servi-lO logo que é salvo. Não comece muito tarde. Se começar muito tarde, será difícil, então comece imediatamente. Quando você continua a viver para o Senhor, servindo-O, gradualmente descobre que parece haver algo diferente. Para algumas pessoas isso pode acontecer muito rapidamente, para outras pode ser um pouco mais demorado. Penso que depende do seu temperamento. Às vezes parece que você vive triunfantemente, celestialmente, gloriosamente, mas outras vezes descobre que vive de forma diferente. Começa a perceber que há duas vidas dentro de você. Quando você vive pela vida de Cristo em você, quando está em comunhão com Deus, parece que a vida de Deus vai à frente e você vive celestialmente. Mas quando há algum tipo de interrupção ou alguma distância entre você e o Senhor, descobre que ainda pode viver, mas de uma forma diferente. Você parece estar voltando para a sua velha forma de vida.

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Gradualmente, você começa a descobrir que há mais de uma vida, há mais de um poder – não apenas em sua vida, mas em seu serviço. Quando está servindo com todo zelo e todo poder que você tem, às vezes parece haver um questionamento: é você, seu poder, sua inteligência, sua habilidade ou é o Espírito Santo em você quem o está fazendo? Você começa a questionar, e na medida em que a experiência espiritual prossegue, quando você começa a questionar, é o começo da libertação. Se você nem mesmo questiona, então não há nenhuma esperança. Mas se você realmente estiver tocando o Senhor em sua vida diária, se houver comunhão com o Senhor quando você vive e serve, mais cedo ou mais tarde esse questionamento virá à sua vida. Ele pode vir de muitas formas diferentes. Às vezes você questiona: é o Senhor ou sou eu mesmo? É o espírito ou é a alma? É o poder da alma ou o poder do espírito? Você começa a questionar. É como se você tivesse uma dupla personalidade.

Quando você percebe isso, entra em crise. Você sabe que quer viver pela vida divina em você. Não quer voltar para a velha forma e viver pela sua vida da alma. Você sabe que quer servir pelo poder do Espírito Santo e não pelo seu poder da alma. Você sabe disso, mas como pode distingui-los? Você não sabe como. Você só sabe posteriormente – depois que o fez e vê as consequências ou o Espírito Santo começa a falar dentro de você. Ele não o desculpa; então você percebe que algo está errado ali. Graças a Deus pelo Espírito Santo que vive em nós. Ele está nos ensinando todo o tempo. Muitas vezes não sabemos até que já tenha acontecido. Mas, graças a Deus, somente através de fracasso após fracasso parece que nos tornamos mais afiados. Parece sermos capazes de discernir mais rápido.

Como você distingue o espírito da alma? Como distingue o poder espiritual e o poder da alma? As Escrituras dizem: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4:12).

Não somos capazes de dividir o espírito e a alma por nós mesmos. Não somos capazes de distinguir se é o poder da alma ou o poder do espírito até que vejamos as consequências. Se você tenta distingui-los, fica paralisado. Quando começa a perceber que há dois poderes dentro de você, duas vidas, e que quer ficar do lado de Deus, quer viver pelo poder da Sua vida, quer servir pelo Seu poder e não pelo seu poder, então é muito natural que você tente analisar cada ação, cada pensamento, cada palavra. É Deus ou sou eu? É o espírito ou é a alma? É o poder espiritual ou é o poder da alma? Você começa a analisar, e quanto mais analisa, mais fica paralisado. Ao analisá-lo, você já caiu na alma. Por isso o resultado é que em sua vida cristã você chega a um ponto onde fica paralisado. Eu digo que aqueles que estão paralisados são bons cristãos. Se você nunca ficou paralisado, não sabe onde está.

Há uma história sobre uma centopeia. Uma centopeia tem cem pés e rasteja muito rápido. Um dia, ela disse: “Quero saber qual dos meus pés começa primeiro”. Assim tentou calcular qual dos cem pés se movia primeiro. Enquanto ela tentava calcular, ficou imóvel. Finalmente ela desistiu: “Não me importa”, e se foi.

Muitos cristãos hoje se parecem com essa centopeia. Estamos analisando, analisando, analisando, e ficamos paralisados. Não podemos fazer isso. Então como vamos distinguir? Onde está a libertação? É muito simples. Não somos capazes de fazê-lo, mas Ele é capaz.

Hebreus 4:12 é uma figura de um sacrifício. Há o altar, e o sacrifício é colocado nele. Mas o sacrifício não corta a si mesmo. Quem corta o sacrifício? Os sacerdotes. Só eles podem cortar o sacrifício de tal forma que depois de feito em pedaços você pode juntá-lo e ainda mostrar a forma perfeita de um cordeiro. Se você me pedir para cortar até mesmo um frango, nunca será capaz de juntar as partes como um frango. Mas os sacerdotes podiam cortar um sacrifício; por isso a oferta queimada seria cortada em pedaços para mostrar tudo. Então tinham que juntá-los como um cordeiro sobre o altar, e o fogo começava a queimá-lo até as cinzas como a comida de Deus. Os sacerdotes usavam uma espada afiada de dois gumes, que dava um corte definido. Ela cortava o osso na junta e expunha a medula. Quando você tenta analisar a si mesmo, se é o espírito ou a alma, se é o poder do espírito ou o poder da alma, está cortando a si mesmo. Você faz uma confusão de você mesmo.

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O que é a espada de dois gumes? Ela é a Palavra de Deus. A Palavra de Deus é a espada do Espírito (veja Efésios 6:17). A Palavra de Deus não é a nossa espada. Ela é a espada do Espírito. Em outras palavras, só o Espírito Santo é capaz de manejá-la. O nosso problema é que tomamos a Palavra de Deus e cortamos os nossos irmãos; usamos a Palavra de Deus e cortamos uns aos outros. Não; a Palavra de Deus não é para você e eu manejarmos. Somente o Espírito de Deus pode manejar a Palavra de Deus, e quando Ele maneja a Palavra de Deus, ela se torna viva, despedaçando, cortando, dividindo, operando. Quando o Espírito de Deus toma a Palavra de Deus e a aplica à nossa vida, imediatamente o espírito e a alma são divididos. Esta é a forma de chegarmos a saber a diferença.

Então você diz: “O que faço?”. Tudo o que você faz é colocar-se sobre o altar. Isso é tudo. “Senhor, sou Teu. Quero viver pela Tua vida; pelo poder espiritual, não pelo meu poder. ‘Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.’ Senhor, quero isso. Por isso dou-me a Ti. Ponho-me no altar. Entrego-me a Ti. Rendo-me a Ti. Confio-me a Ti. Faça qualquer coisa que precisar ser feita em Teu tempo, da Tua forma”. Quando você vive diante do Senhor desse modo, então o Espírito de Deus, em Seu tempo e da Sua forma, usará a Palavra para dividir o espírito e a alma. O nosso problema é que tentamos ajudar, e quanto mais ajudamos, mais irremediável é a situação.

É por isso que temos que consagrar a nossa vida, apresentar o nosso corpo como um sacrifício vivo dia e noite sobre o altar e deixá-lO fazer a Sua obra. Não tente fazer a obra você mesmo. Você não pode fazê-la. Deste modo, pela experiência, você adquire discernimento espiritual. O discernimento espiritual é ganho pela experiência. Na medida em que você continua com o Senhor, dia após dia, gradualmente, torna-se mais e mais claro. Esta é a forma pela qual você é libertado da vida e do poder da alma.

As pessoas querem ter um exemplo prático. Penso que o exemplo de Jacó é típico. Ele era um trapaceiro, um suplantador, um contendor. Mesmo no ventre de sua mãe, lutou com seu irmão. Ele é um exemplo típico de uma pessoa que vivia pela vida da alma. Ele tinha uma grande alma, uma alma poderosa. Ele estava sempre planejando, conspirando e lutando, e parece que não tinha competidor. Seu irmão não foi páreo para ele, seu pai não foi páreo para ele, até seu tio não foi páreo para ele. Ele sempre chegava ao topo. Ele prevalecia; era forte no poder da alma. Porque tinha tal poder, os tratamentos de Deus eram pesados. Ele teve que deixar sua casa e nunca mais viu sua mãe. Ele teve que ficar em uma terra estranha e lutar durante vinte anos com seu tio. Finalmente, ele teve que fugir. Muito embora Deus sempre o livrasse, ele ainda dependia dele mesmo.

Quando ele ouviu que seu irmão estava vindo com quatrocentos homens, sabia o que ia acontecer, por isso conspirou novamente. Ele dividiu sua gente em dois grupos para que se Esaú atacasse um, o outro pudesse fugir. Não, aquele plano não era perfeito, por isso ele enviou mensageiro após mensageiro, presente após presente, tentando amolecer o coração de seu irmão. Não, não foi suficiente. Ele mandou toda a sua família atravessar o rio, mas ele não pôde atravessar. Ficou do outro lado, ainda pensando e conspirando. Naquela noite, o anjo do Senhor veio e lutou com ele.

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Bem, Jacó era um lutador. Ele não apenas podia lutar com o homem, mas podia lutar com o anjo do Senhor. Eles lutaram por uma noite inteira. Quão forte era a sua vida da alma! Aquele anjo não pôde vencê-lo. Isso tem a ver com você? Você tem uma alma muito forte. Nenhum homem pode mudá-lo, nem mesmo Deus.

Jacó lutou e lutou; ele não desistiu. Finalmente, aquele anjo viu que não podia vencê-lo, por isso tocou a junta da sua coxa, e Jacó ficou mutilado. Na luta, a parte mais importante é a sua coxa, e quando ela é tocada, todo o poder se vai. Você sabe o que Jacó fez? Ele disse ao anjo: “Não o deixarei ir; agora estou fraco. Não posso fazer nada a menos que você me ajude”. Ele não o deixou ir, por isso o anjo do Senhor disse: “Como você se chama?”. “O meu nome é Jacó.” “Sim, isso é o que você é. De agora em diante, mudo seu nome para Israel, um príncipe de Deus.” Jacó chamou àquele lugar Peniel. Ali ele esteve face a face com Deus e o seu poder da alma foi mutilado. Desde então ele dependeu do poder de Deus. Ele era uma pessoa diferente. Ele não era mais Jacó, que planejava tudo por si mesmo. Ele era Israel, um príncipe de Deus. A vida de Deus foi manifestada nele.

Isso é algo que deve acontecer conosco. Se acontece de uma forma tão drástica como foi com Jacó ou se acontece gradualmente, mais cedo ou mais tarde, deve chegar ao ponto em que o nosso poder da alma é mutilado. Então viveremos pelo poder de Deus.

Devo dizer algo sobre a distinção entre o poder da alma e o poder diabólico. Novamente, digo que é quase impossível distinguir entre o poder da alma e o poder diabólico porque é o diabo que o estimula a liberar, usar seu poder da alma. Ele sabe que se for capaz de fazê-lo usar seu poder da alma, consequentemente o seu poder diabólico virá. O poder da alma abre caminho para o poder diabólico. É por isso que o poder da alma é tão perigoso: é terreno, é da alma, é diabólico. Por isso é muito importante tratar com o seu poder da alma. Se você estiver disposto a tratar com o seu poder da alma, então isso fecha a porta para o poder diabólico.

Satanás tentou o nosso Senhor a usar o Seu poder da alma para converter pedras em pães. Se Ele tivesse feito isso, Satanás O teria pego. Mas, graças a Deus, o Senhor disse: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4). Quando você trata com o seu poder da alma, o poder diabólico é trancado para fora da porta. Quando você abre a porta do poder da alma, o poder diabólico entra. Este é um ponto.

Outro ponto é que as Escrituras nos dizem muito claramente: “… não deis crédito a qualquer espírito…” (1 Jo 4:1). Prove todo espírito. O nosso problema hoje é que algumas pessoas não creem que haja um mundo espiritual. Mas uma vez que você crê que há um mundo espiritual, pensa que todo espírito é bom. Não; prove todo espírito. Se você provar todo espírito, então não será enganado. Tiago nos diz para resistir ao diabo, e ele fugirá de nós. Nunca se comprometa com o diabo. Nunca converse com o diabo. Resista-lhe, e ele fugirá de você.

As perguntas são infinitas, mas há uma resposta para todas elas, e esta é o Senhor. Assim, se você vai ao Senhor, todas as perguntas são respondidas.

 

(O presente artigo foi retirado da obra Poder Espiritual, de Stephen Kaung, publicado pela Editora dos Clássicos.)

Stephen Kaung

Stephen Kaung é um obreiro, conferencista e escritor cristão que vive em Richmond, Virginia, EUA. No início dos anos 1930, juntou-se com Watchman Nee em ministério de tempo integral na China. Em 1952, mudou-se para Nova Iorque. Nos anos 1960, ele trabalhou junto a T. Austin-Sparks. O Senhor o tem usado tremendamente em várias partes do mundo. Ele promoveu a publicação de mais de 50 obras de Watchman Nee para o inglês. Hoje, com mais de 102 anos, Stephen Kaung continua servindo ao Senhor no ministério da Palavra.

  • Neste volume da Série Espiritualidade, Stephen Kaung nos convida a considerarmos três tipos diferentes de poder: o poder da alma, o poder divino e o poder maligno. Definitivamente, esta é uma obra de grande ajuda para o povo de Deus neste tempo do fim.

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Comentários

  • Ricardo Lopes

    Que texto precioso e verdadeiro. Grato aos irmãos, por disponibilizá-lo!
    A graça e a paz de nosso Senhor sejam com todos.