Gerson Lima – Os Equívocos do Cristianismo Judaizante

26 jun

“A fé, em seu excesso de zelo, torna-se fanatismo.” –Abraham Joshua Heschel

Existe um movimento judaizante que tem perturbado cristãos simples em muitos lugares. Adicionar ao Evangelho as práticas da Lei de Moisés, como se a graça de Deus para salvação não fosse suficiente ou para ser agradável a Deus, é anular a obra de Cristo. Portanto, o crescimento do falso judaísmo no cristianismo demonstra o analfabetismo bíblico de supostas lideranças cristãs.

Paulo enfrentou essa antiga serpente, denunciando que a mescla do judaísmo com o Evangelho é um falso evangelho. Segundo as palavras de Paulo, tal falso evangelho é maldito, e os que o pregam caem sob a maldição de Deus (Gl 1:6-9). Simpatizar-se pelo falso judaísmo não é progresso, mas apostasia, é cometer os erros de gerações do passado.

 

A controversa história de um obreiro cristão judaizante

Em meados da década de 90, recebi uma carta do saudoso irmão Gino Iafrancesco e li-a imediatamente. Em seguida, um obreiro de outro estado e sua esposa chegaram à minha casa. Logo eu soube que o que estavam pregando nas igrejas eram as heresias blasfemas que abraçaram de falsos mestres judaizantes, e era exatamente desses perigos que a carta me alertava.

Eles até chegaram a afirmar que várias partes do Novo Testamento são adulteradas e que ninguém que havia crido em Jesus era salvo, uma vez que ele é invenção do inimigo, e somente recebendo o Yeshua dos judeus, o verdadeiro Messias, e se batizando em seu nome alguém poderia ser salvo.

Por fim, depois de horas tentando persuadi-los na verdade, pedi enfaticamente que se retirassem de nossa casa, seguindo as advertências de João (veja 2 João 1:7-11).

Como pôde ter sido enredado a ponto de negar as verdades centrais da fé cristã e passar a blasfemar do Senhor? Ora, se um líder cristão foi enredado pelo engano do judaísmo, o que dizer dos mais simples? Infelizmente, a resposta mais plausível para esse fenômeno é que se cumpriram nele as palavras de Paulo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm a consciência cauterizada…” (1 Tm 4:1-2).

 

Ventos de doutrinas e costumes judaizantes

Nos últimos trinta anos, ondas cada vez mais crescentes de judaísmo têm assolado o povo de Deus. Com o crescimento dos movimentos neopentecostais e místicos, cresceram também os ministérios de interpretações mais alegóricos e “proféticos”, como resposta progressiva e sobrenatural à teologia reformada conservadora. Em busca do sobrenatural a qualquer custo, a sedução pelo judaísmo produziu o casamento entre o cristianismo e o judaísmo, e o filho dessa união é o cristianismo judaizante.

Líderes cristãos se uniram a agências de turismo e passaram a promover viagens para Israel com propagandas encantadoras. Obviamente, o interesse cultural por Israel é normal e saudável, mas a divinização da terra e de elementos da cultura judaica é paganismo.

A busca por experiências divinas por meio da entronização de elementos do judaísmo tornou-se um sincretismo religioso judaico-cristão e é um dos aspectos mais sutis da apostasia dos últimos tempos, assim como foi o gnosticismo no primeiro século.

Em 2014, foi construído o templo de Salomão, em São Paulo, Brasil, como solidificação deste movimento. Esse templo tem a intenção de ser o maior atrativo turístico judaico-cristão do Ocidente, para onde cristãos do mundo inteiro poderão afluir, como faziam os israelitas em suas sagradas peregrinações ao templo no Antigo Testamento.

Líderes cristãos estão fazendo uso do kipá e do manto sacerdotal. Alguns tiram seus calçados para se achegar ao altar. Candelabros, arcas da aliança, festas e danças judaicas têm adornado os cultos, e para muitos isso representa, de alguma forma, a elevação aos níveis mais altos do novo mover profético da Igreja nesse tempo.

Será o cristianismo judaizante uma nova face do cristianismo contemporâneo? Para aqueles que buscam servir a Deus de acordo com a verdade que está em Jesus (Ef 4:21), ficará claro que tal aberração deve ser considerada uma seita nociva.

 

A batalha contra Jesus, o Messias

Oswald Sanders disse: “A maioria dos erros tem sua origem numa visão errônea da Pessoa de Cristo, e isso por sua vez se reflete na visão inadequada ou errônea da natureza da Sua obra”. [1] Não reconhecer Jesus como o Messias prometido é o maior erro do judaísmo e a base de todos os seus equívocos. Da mesma forma, tentar adicionar a Lei e o judaísmo ao Evangelho, como se a obra de Cristo na cruz não fosse suficiente para a salvação do homem e a nova vida com Deus, é uma afronta ainda maior.

Lance Lambert, um obreiro judeu-cristão muito respeitado, disse[2]: “Quero destacar o fato de que Satanás tem ódio ‘eterno’ e contínuo por Deus, pelo Senhor Jesus e pela Divindade. (…) A Palavra de Deus chama isso de o ministério da impiedade, o qual ainda se aplica a nós seres humanos (…). Não importa onde nós olhamos na Palavra de Deus, o ódio ‘eterno’ e contínuo de Satanás é visto”.

Portanto, a menos que reconheçamos a natureza do problema, que é uma batalha terrível contra a pessoa do Senhor Jesus Cristo, o Messias, e Sua obra perfeita de redenção, jamais entenderemos o real perigo do legalismo judaizante.

 

Jesus não veio revogar a Lei e os profetas, mas cumprir

Os judaizantes usam a passagem de Mateus 5:17, onde Jesus declara: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir” para tentar convencer os cristãos de que temos que praticar a lei. Qual é, de fato, o real significado dessa passagem, em seu contexto?

Segundo Luiz Sayão, mestre em língua, literatura e cultura judaicas, no contexto da língua grega, significa dar pleno sentido, cumprimento, à Lei e aos profetas. Segundo ele, “o verbo traduzido por cumprir (plerosai) tem o sentido literal de encher e indica que Jesus não está revogando a lei, mas faz uma exposição correta dela e assim a cumpre. Ele rejeita a interpretação superficial da Lei, pelos escribas, e a interpreta corretamente. O propósito não é mudar a Lei, nem anulá-la, mas revelar a profundidade do seu significado. Ele afirma que a Lei permanece e exige que os cidadãos do Reino a cumpram”.

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Portanto, quando Jesus diz que a justiça dos discípulos deve exceder a dos escribas e fariseus (Mt 5:20), Ele espera que, pela graça, vivamos as diretrizes da Lei que representam o caráter de Deus.

O problema dos fariseus é que eles se importavam mais com a literalidade da Lei do que com seu sentido útil. Jesus corrige os religiosos que faziam as coisas para cumprir um ritual exterior sem realidade interior, sem ao menos saber por que faziam.

 

O que significa, então, que não estamos debaixo da Lei?

Os judaizantes perguntam: “Se não guardarmos a Lei, então não seria licença para praticarmos o que ela condena?”. De modo algum! Quem está em Cristo pratica Seu novo mandamento, que é viver em Seu amor. Como disse Agostinho, “ame e faça o que quiser”. Ou seja, “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1 Jo 4:16).

Jesus rejeita a tradição religiosa, e não a Lei. Significa que não estamos debaixo da lei civil e judicial. Por exemplo, não podemos matar feiticeiras ou filhos rebeldes. Não estamos debaixo das leis religiosas, cerimoniais, porque elas apontavam para Cristo e n’Ele foram cumpridas.

E das leis morais? Nós fomos libertos delas no sentido de que fomos cobertos pela graça e não há imposição de tentar cumpri-las pelo esforço da carne, sem a força da nova vida em Cristo. A Lei exigia, mas matava ao não capacitar o homem a obedecer. Cristo praticou a Lei e nos deu vida para, n’Ele, vivermos as diretrizes da Lei.

“Cristo estava indicando que ele é o cumprimento da lei em todos os aspectos. Ele cumpriu a lei moral ao respeitá-la perfeitamente. Ele cumpriu a lei cerimonial ao ser a incorporação de tudo o que os tipos e símbolos apontavam. E ele cumpriu a lei judicial ao personificar a perfeita justiça de Deus.” – John MacArthur

Em Mateus 15, Jesus chama os fariseus e mestres da Lei que foram tentá-lo de hipócritas, pois, à semelhança dos mestres judaizantes de hoje, estavam anulando a Palavra de Deus por causa das tradições que eles criaram ao interpretar errado a Lei.

 

Eu, porém, vos digo…

Os judaizantes interpretam mal os mandamentos do Senhor mencionados em João 14:15, 1ª João 5:2 e Apocalipse 14:12 como a necessidade da observação da Lei, uma vez que o NT ainda não havia sido concluído.

É um erro básico de interpretação de texto, à semelhança dos antigos fariseus, atribuir conclusões fora de contexto para tentar justificar suas tradições. Vejamos.

Em Mateus 5, encontramos seis declarações feitas por nosso Senhor, mediante as quais ele introduz seu assunto por meio da fórmula “Ouvistes que foi dito… Eu, porém, vos digo…”.

Segundo o Dr. Martyn Lloyd-Jones, “é importante observar que, nesses seis contrastes apresentados por nosso Senhor, ele não estava comparando a lei de Moisés, como tal, com a sua própria doutrina; antes, ele comparava essa lei com a falsa interpretação exposta pelos fariseus e escribas”.[3]

Em Mateus 22:40, Jesus sintetiza todos os mandamentos em dois ao dizer que deles dependem toda a Lei. Jesus era judeu, seguia a Lei, mas não pertencia às escolas rabínicas da época. Ele pregava em qualquer lugar e para gente simples, e não exclusivamente no centro religioso de Jerusalém, por isso atraía a oposição dos escribas e fariseus; os líderes diziam que Ele estava indo contra a Lei e Moisés.

Ao confrontá-los, Jesus repreende-os dizendo que eles seguiam as tradições religiosas deles e não seguiam Moisés – que apontou para a vinda d’Ele. Jesus os denunciava: “Vocês invalidam a palavra de Deus, por causa da tradição de vocês” (Mt 15:6).

Paulo, outrora praticante da Lei, lamenta pelos que, em seu zelo religioso, não entenderam o real propósito da Lei:

“Porquanto, ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se submeteram à justiça de Deus. Porque o fim da lei [o propósito real] é Cristo [tudo se cumpriu n’Ele na cruz], para a justificação de todo o que crê” (Rm 10:3-4).

Estando n’Ele, estamos livres do jugo da Lei. “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13:34-35).

Cumprir Seus mandamentos era permanecer em Seu amor e cuidar uns dos outros, pelo poder do Espírito Santo derramado nos corações. Não se trata da lei externa escrita em tábuas de pedra, que gera morte, mas sim a lei do Espírito de Vida em Cristo Jesus (Ro 8:1-2). Agora, n’Aquele que cumpriu a Lei e nos salvou pela graça, somos chamados a considerar, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela perseverar em agradar a Deus (Tg 1:25), procedendo como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade, e não mais pela Lei de Moisés (Tg 2:12).

 

E quanto ao dever de guardar o sábado?

Segundo Daniel Juster[4], um judeu messiânico, “o que a Lei tem a ver com tudo isso [costumes e tradições judaicas]? Em primeiro lugar, não mais nos voltamos para a Lei buscando justiça intrínseca ao guardá-la. Morremos no Messias [Jesus] para toda a preocupação legalista com a Lei. Paulo dá o exemplo da mulher que é liberta do compromisso legal do casamento com a morte do marido. Morremos para a Lei (Rm 7.4) no sentido de que não há mais pena a cumprir nem escravidão legal. Nosso maior foco agora é o poder do Espírito e o seu amor atuando na nossa vida fundamentada na lei do amor (…).

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“Com a vinda da Nova Aliança, o principal marco do povo de Deus passou a ser a fé na morte e ressurreição de Yeshua [Jesus] e, na minha opinião, na transformação que ele opera no indivíduo (…).

“Nada no Novo Testamento contradiz o sentido do Shabat [sábado] estabelecido no Tanach [Antigo Testamento] (…). Fora do contexto judaico, o apóstolo Paulo preconizou a liberdade quanto aos dias de culto. Porém, em nenhum momento, ele se manifesta contrário aos judeus que guardam o Shabat. Ao mesmo tempo, ele não permitiu a imposição do Shabat a não judeus (…)”.

 

Quanto ao argumento das tribos perdidas

Os cristãos são os descendentes das tribos perdidas de Israel e devem procurar rastrear sua árvore genealógica para certificar sua descendência judaica?

Novamente, Daniel Juster[5] responde: “Os efraimitas, ou povo das Duas Casas, enfatizam que os judeus foram espalhados por todos os povos; portanto, todos os que se tornam cristãos nessas nações vieram de fato das tribos perdidas (…).

“Os membros dos movimentos de lei única e do movimento efraimita tendem a hostilizar a Igreja por ser pagã e por não respeitar a Torá. Os pontos em comum desses dois movimentos são facilmente percebidos. Uma de suas facetas mais infelizes é que há líderes da Igreja acreditando que eles representam o movimento messiânico, quando a verdade é que o movimento judaico-messiânico em Israel em todos os continentes, em sua grande maioria, rejeita esses falsos ensinamentos”.

Não há nenhum ensinamento no Novo Testamento que dê base para esse ensino. Alguém pode buscar sua raiz genealógica e descobrir ter descendência judaica; no entanto, seria um desvio se, ao considerar-se descendente das tribos perdidas, sendo um cristão, abraçar o judaísmo.

 

Devemos chamar o Salvador de Jesus ou Yeshua?

Outro erro gritante de interpretação dos judaizantes está em insistir que o nome do Messias foi escrito em hebraico e Jesus é um nome pagão, uma blasfêmia e temos que voltar às raízes hebraicas da fé.

Em Lucas 2:21, consta: “… foi-lhe posto o nome de Jesus, o qual lhe tinha sido dado pelo anjo antes de ele nascer”. O nome “Jesus” (em grego “Iésous”) é o equivalente de Yeshua/Yehoshua em hebraico, significando “Javé salva”, ou “o Senhor salva”. Para os judeus era normal pronunciar o nome Yeshua em hebraico ou aramaico, sua língua nativa. No entanto, nos documentos originais foi preservado em grego.

O grande equívoco dos judaizantes é que os evangelhos foram escritos em grego, a língua que predominava no mundo da época, e não em hebraico. Como a ordem do Senhor era que o Evangelho fosse pregado a todas as nações, ele foi escrito e divulgado nessa língua.

“Não há nenhum manuscrito antigo do evangelho de Lucas e dos demais que esteja em hebraico ou aramaico porque os evangelhos não foram escritos nessa língua, com exceção, talvez, do evangelho de Mateus.

“Quis Deus preservar o nome do Salvador em grego, ‘Iésous’. Se Deus quisesse que O conhecêssemos pelo nome em hebraico e O chamássemos assim, Ele teria preservado isso em hebraico ou aramaico. Mas não temos nenhum documento assim. O que Deus preservou foram os manuscritos em grego. Portanto, para nós, o nome d’Ele é “Iésous” [transliterado como Jesus]” (Augustus Nicodemus)[6].

 

O segredo para entender as Escrituras

Você não precisa ser um erudito para conhecer as Escrituras. C. S. Lewis disse: “Deus nunca se faz de filósofo diante de uma lavadeira”.

“As Escrituras não são labirintos escuros onde nos perdemos em perguntas sem respostas. O Criador do Universo é o nosso Pai de amor, e a Bíblia é sua Palavra, através da qual podemos conhecer Seus pensamentos e, através deles, Sua Pessoa (…). A mensagem central da Bíblia é vida com Deus pela revelação de seu Filho. Sem se achegar ao Filho pela Bíblia, ela se torna um universo em caos[7].”

Sendo o Novo Testamento tão claro quanto a maldição do falso evangelho judaizante, infelizmente, só nos resta crer que as inconsequentes e equivocadas interpretações do cristianismo judaizante são obras de homens liberais, moralmente incorretos, ou que não têm o Espírito que guia em toda verdade.

Gerson Lima


Escrito em Monte Mor, SP, no final de maio de 2020.

Revisão: Paulo César de Oliveira.

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[1] O Incomparável Cristo, Editora Fileo, 2018.

[2] https://www.youtube.com/watch?v=DzzwRU3_mWQ

[3]  Estudos no Sermão do Monte, Editora Fiel, 5ª ed., 2001.

[4] Raízes Judaicas (Entendendo as Origens da Nossa Fé), Impacto Publicações, 2018.

[5] Ibidem.

[6] https://www.youtube.com/watch?v=mowGFEKcv8c

[7] Gerson Lima. Divórcio: Sobrevivendo entre o legalismo e a libertinagem. https://editoradosclassicos.com.br/portal/divorcio-sobrevivendo-entre-o-legalismo-e-a-libertinagem/

[8] Revisão: Paulo César de Oliveira.

Gerson Lima

Editor da Editora dos Clássicos.

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