O Espírito Santo e a consciência

23 maio

O Espírito Santo e a ConsciênciaAndrew Murray

Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência. (Romanos 9:1)

A maior glória de Deus é a Sua santidade, em virtude da qual odeia e destrói o mal, ama e opera o bem. Na humanidade, a consciência tem a mesma função: condenar o pecado e aprovar o que é certo e bom. Após a queda no pecado, a consciência foi o que sobrou da imagem de Deus no homem, como aquilo que mais se aproxima de Seu caráter, como a guardiã da honra Dele. A obra redentora de Deus começa na consciência. O Espírito de Deus é o Espírito de santidade; a consciência é uma fagulha da santidade divina. A harmonia entre a obra do Espírito Santo, em renovar e santificar o homem, e a obra da consciência é íntima e essencial. O crente que deseja ser cheio com o Espírito Santo e experimentar fartamente as bênçãos que Ele dá, deve primeiro conceder à sua consciência o lugar de honra que lhe é devido. A fidelidade à consciência é o primeiro passo na senda da restauração à santidade de Deus. Uma boa consciência é o princípio fundamental e característico da verdadeira espiritualidade. À medida que a consciência testifica em imediata resposta a Deus e à medida que o Espírito dá testemunho da aceitação, por parte de Deus, da nossa fé e obediência, então os dois tornam-se um. A consciência e o Espírito são unidos quando aquele constata que o Pai nos respondeu, enquanto este testifica que Deus aceitou nossa fé e obediência.

A consciência pode ser comparada à janela de um quarto pela qual irradia a luz do céu e, bem como, pela qual podemos ver o céu. O coração é o aposento que expressa nossa vida, ego e alma com suas capacidades e afeições. Nas paredes desse aposento, está escrita a lei de Deus. Mesmo nos povos pagãos, ela é ainda parcialmente legível, embora tristemente obscurecida e descaracterizada. No crente, a lei está escrita, pelo Espírito Santo, em letras de luz, as quais são frequentemente turvas no princípio, mas tornam-se mais claras e evidentes à medida que são expostas à luz que vem de Deus. A cada pecado que cometo, a luz que brilha interiormente evidencia-o e condena-o. Se o pecado não é confessado e abandonado, a mancha permanece e a consciência torna-se corrompida porque a mente rejeitou o ensino da luz (Tt 1:15). E assim, com pecado sobre pecado, a janela fica mais e mais opaca, até que a luz mal consegue brilhar através dela, ao ponto de um cristão poder passar a pecar sem perturbação, pois sua consciência tornou-se praticamente cega e insensível.

Em Seu trabalho de renovação, o Espírito Santo não cria novas faculdades; Ele renova e santifica aquelas que já existem. A consciência é uma obra do Espírito de Deus na função de Criador. Como Espírito de Deus, na função de Redentor, Seu primeiro cuidado é restaurar o que o pecado corrompeu. É somente restaurando a consciência à sua função plena e saudável, e nela revelando a graça maravilhosa de Cristo, com “o Espírito testificando com o nosso espírito”, que Ele habilita o crente a viver uma vida na plena luz do favor de Deus. É quando a janela do coração, que tem vista para o céu, é limpa, e assim permanece, é que podemos andar na luz.

Por meio da consciência, o Espírito faz com que a luz da lei santa de Deus brilhe dentro do coração. Um quarto pode ter as cortinas puxadas, ou mesmo as venezianas fechadas, mas isso não impede que a luz de um relâmpago, de tempo em tempo, brilhe através delas. É possível que uma consciência esteja tão corrompida e cauterizada a ponto da pessoa continuar vivendo como se tudo estivesse “normal”. Quando o relâmpago do Sinai brilha no coração, a consciência desperta e fica pronta para admitir e sofrer a condenação. Tanto a lei quanto o evangelho, com o seu chamado ao arrependimento e a sua convicção de pecado, apelam para a consciência. É apenas quando a consciência concorda com a acusação da transgressão e da incredulidade, que o livramento pode verdadeiramente vir.

É através da consciência que o Espírito, do mesmo modo, faz com que a luz da misericórdia brilhe. Quando as janelas de uma casa estão manchadas, ainda podem ser lavadas. “… muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!” (Hb 9:14; 10:2, 22). O alvo do sangue de Cristo é alcançar a consciência, para silenciar suas acusações, e limpá-la até que possa testificar: cada mácula está removida; o amor do Pai faz com que Cristo, em brilho evidente, irradie em minha alma. Este é o privilégio de cada crente. Isso é o que se verifica quando a consciência diz: “amém” à mensagem de Deus a respeito do poder do sangue de Jesus.

A consciência que foi purificada no sangue deve ser mantida limpa através de um andar em obediência e fé, com a luz do cuidado de Deus brilhando sobre ela. Diante da promessa de que o Espírito de habitação, o Espírito de Cristo, se responsabilizaria em guiar-nos em toda a vontade de Deus, é a consciência que constata e testifica que Ele tem realizado esta obra. O crente é chamado a andar em humildade e vigilância, a fim de que em nada sua consciência o acuse de não ter feito o que ele sabia ser certo ou ter feito o que não provém de fé. Ele deve estar contente com nada menos do que o testemunho da boa consciência, conforme ressaltou Paulo: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo…” (2 Co 1:12. Cf. Atos 23:1; 24:16; 2 Timóteo 1:3). Note bem estas palavras: “nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência”. É quando a janela é mantida limpa e brilhante por nossa habitação na luz que nós podemos ter comunhão com o Pai e com o Filho. O amor do céu resplandece fulgurante em nosso interior, e nosso amor responde em confiança infantil. “Amados, se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus… porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável” (1 Jo 3:21-22).

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A manutenção de uma boa consciência em relação a Deus é essencial para a vida da fé. O crente não deve se contentar com nada menos que isso. Ele deve estar convicto de que isso está ao seu alcance. Os crentes do Antigo Testamento tiveram, pela fé, o testemunho de terem agradado a Deus (Hb 11:4-6, 39). No Novo Testamento, ela se coloca diante de nós não somente como um mandamento a ser obedecido, mas também como uma graça concedida pelo próprio Deus. “… a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda a boa obra e crescendo no conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória…”; “… para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé…; “… operando em vós o que é agradável diante dele” (Cl 1:10-11; 2 Ts 1:11; Hb 13:21). Quanto mais buscamos esse testemunho da consciência – de que estamos fazendo o que é agradável a Deus – mais sentiremos o livramento daquelas falhas que nos privam de olharmos imediatamente para o sangue de Cristo. O sangue, que limpa a consciência, age no poder da vida eterna, constante, imutável e que salva completamente. ”Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1:7).

A causa da fraqueza da nossa fé é a falta de uma consciência limpa. Perceba como Paulo conecta as duas coisas em 1 Timóteo: “… ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” (1:5); “… mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1:19). E especialmente 3: 9: “… conservando o mistério da fé com a consciência limpa”. A consciência é o fundamento da fé. Aquele que deseja se fortalecer na fé, e ter confiança para com Deus, deve saber se O está agradando (1 Jo 3:21-22). Jesus disse claramente que é para os que O amam e guardam Seus mandamentos que a promessa do Espírito é dirigida. Como podemos reivindicar, confiadamente, essa promessa, a não ser que, em simplicidade infantil, nossa consciência possa testificar que preenchemos as condições? Até que a Igreja possa subir à altura de seu santo chamado como intercessora, e reivindicar essas promessas ilimitadas que lhe estão disponíveis, os crentes se aproximarão de seu Pai, regozijando-se, como Paulo, no testemunho de sua consciência – de que pela graça de Deus estão andando em santidade e sinceridade divina. Devemos compreender que esta conduta exige a mais profunda humildade e traz a maior glória para a graça ofertada por Deus; levando-nos a desistir das nossas pretensões de que podemos alcançar, por nós mesmos, o padrão que Ele se propõe em conceder-nos gratuitamente.

Como pode ser alcançada essa vida santa que nos habilita a invocar diariamente a Deus e aos homens como Paulo: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência”? O primeiro passo é humilhar-se sob a reprovação da consciência. Não se contente com uma confissão superficial de que algo está errado. Tome cuidado com a confusão entre transgressão real e tentação para pecar. Se temos de morrer para o pecado, pelo Espírito de habitação, devemos primeiro lidar com a prática do pecado. Em silenciosa submissão e humilhação, conceda à consciência tempo para reprovar e condenar qualquer pecado. Diga para o seu Pai que você, pela Sua graça, irá obedecer – mesmo nas menores coisas. Aceite, mais uma vez, a oferta de Cristo de governar totalmente seu coração, habitar em você como Senhor e dono. Confie que Ele, pelo Seu Espírito Santo, fará isso, mesmo quando você sentir-se fraco e desamparado. Lembre-se que a obediência, o acolhimento e a observância das palavras de Cristo em sua vontade e vida, é o único caminho para provar a realidade de sua rendição a Ele e o seu interesse em Sua obra e graça. Prometa, em fé, que pela graça de Deus você irá procurar sempre ter uma consciência livre de ofensa a Deus e aos outros.

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Quando você seguir esses passos, estará sendo fiel em manter sua consciência pura, e a luz do céu irá resplandecer de forma mais gloriosa no seu coração, revelando o pecado e enfatizando a lei escrita pelo Espírito. Esteja disposto a ser ensinado; confie que o Espírito irá ensiná-lo. Cada esforço sincero para manter limpa a consciência, que foi lavada pelo sangue, será acompanhado da ajuda do Espírito. Renda-se de todo o coração à vontade de Deus e ao poder do Seu Espírito Santo.

À medida que você curvar-se à reprovação da sua consciência e entregar-se completamente para fazer a vontade de Deus, sua intrepidez se fortalecerá, tornando possível ter uma consciência livre de ofensa. O testemunho da consciência sobre o que você está fazendo e irá fazer, pela graça, será acompanhado pelo testemunho do Espírito sobre o que Cristo está fazendo e irá fazer. Em simplicidade infantil, você irá procurar começar cada dia com a simples oração: “Pai, não há nada agora entre o Senhor e este seu filho. Minha consciência, divinamente limpa no sangue, dá testemunho disso. Não permita que nem mesmo a sombra de uma nuvem interfira nesse dia. Em tudo quero fazer a Sua vontade: Seu Espírito habita em mim, me guia e me fortalece em Cristo”. Você entrará naquela vida que se regozija somente na graça ilimitada, e que diz ao fim de cada dia: nosso gozo é esse: o testemunho de nossa consciência de que em santidade e divina sinceridade, pela graça de Deus, nos conduzimos neste mundo.

(Artigo extraído do capítulo 21 da obra “O Espírito de Cristo”, Editora dos Clássicos, 2013, considerado por muitos como o maior clássico de Andrew Murray e um dos maiores da literatura cristã).

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Andrew Murray

Andrew Murray (1828-1917) aprendeu suas mais preciosas lições espirituais por meio da escola do sofrimento, principalmente após uma séria enfermidade. Os livros que escreveu são mundialmente reconhecidos pelos mais experimentados servos do Senhor nos últimos dois séculos como obras indispensáveis sobre o caminho da vida profunda com Cristo.

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